Onde estão os diamantes, Sérgio Cabral?

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Luis Gustavo Reis*, Pragmatismo Político

Lamento informar, mas Sérgio Cabral não inaugurou a prática de embolsar dinheiro público brasileiro e investir em diamantes. Quinhentos e dezessete anos antes do ex-governador, outro Cabral, esse de nome Pedro, já era obstinado pelas riquezas que essas terras poderiam lhe render. Embora repugnante, Sérgio Cabral sustentou uma práxis corriqueira nos anais da História do Brasil.

Passa longe desse singelo texto subestimar a inteligência do leitor, já devidamente informado sobre a prática aqui citada, mas cabe reforçar a informação e aproveitar a celeuma do atual momento para refletir sobre os descaminhos da riqueza nacional. Até porque, falir um estado inteiro é um descalabro que deve ser repudiado com veemência todos os dias.

São vários os episódios em que funcionários públicos usaram seus cargos para fins desonrosos – ladroagem mesmo, caro leitor, para não recorrer a eufemismos.

Desde que desembarcaram em Porto Seguro nos idos de 1500, a ânsia dos colonizadores portugueses sempre foi encontrar metais preciosos, especialmente ouro. Para isso não pouparam sadismos: escravidão, torturas, assassinatos e todo tido de perversidade.

No final do século XVII, os bandeirantes encontraram o tão procurado ouro na região que atualmente corresponde a Minas Gerais. Descobriam jazidas do valioso metal, mas foram desclassificados da exploração e expulsos da região.

A descoberta do ouro atraiu dezenas de pessoas para região das minas, esperançosas de um rápido enriquecimento.

O alto fluxo populacional trouxe uma série de problemas para a Coroa Portuguesa, obrigada a organizar a exploração para morder a sua parte do butim.

O período minerador foi relativamente breve. Em meados de 1750, as jazidas já davam sérios sinais de esgotamento.

Todavia, calcula-se que 800 toneladas de ouro foram retiradas do Brasil – quantidade que corresponde a uma manada composta por 100 elefantes maciços! Foi ouro suficiente para atenuar as dívidas da Coroa Portuguesa, financiar partes da Revolução Industrial Inglesa, construir opulentas igrejas no Brasil e, como não poderia ser diferente, enriquecer ainda mais a parasitária elite que rapinava os trópicos.

Esse cálculo não inclui os diamantes e outros metais preciosos contrabandeados. Padres, governadores, soldados, comerciantes e funcionários do governo sempre encontravam uma forma de larapiar os recursos. O próprio governador de Minas Gerais, D. Lourenço de Almeida (1721-1732), formou uma rede de contrabandistas com conexões internacionais. O ouro saído das minas abastecia diretamente os cofres que o alcaide matinha em algumas regiões da Europa. Alguma semelhança, Sérgio Cabral?

Por falar em Cabral, voltemos a ele. Com laços políticos sólidos no Rio de Janeiro, Sérgio Cabral foi campeão de votos na década de 1990 quando sua carreira política ganhou projeção. Com três mandatos consecutivos como deputado estadual pelo PSDB, acabou se elegendo senador em 2002 já no PMDB, partido pelo qual foi eleito governador do estado do Rio de Janeiro por duas vezes (2006 e 2010).

Cabral sempre pousou de paladino da moralidade, uma espécie de arauto da ética e da decência na política institucional. Presença confirmada nas camarilhas dos principais partidos políticos do Brasil, foi idolatrado por altos dirigentes de “diferentes” espectros ideológicos.

Nos bastidores, porém, agia como um salteador, fazendo acordos com empreiteiros e empresários, recebendo propinas exorbitantes e torrando dinheiro público em viagens, restaurantes, carros, imóveis e – para ostentar ainda mais – diamantes para sua esposa Adriana Ancelmo.

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Até hoje não se sabe onde Cabral escondeu as joias mais valiosas que adquiriu por meio de propina, mas sabem-se as consequências das suas rapinagens para população carioca: alto índice de desemprego; violência desenfreada; servidores públicos com pagamentos atrasos; universidade agonizando; hospitais sucateados; escolas destruídas; transporte público precário. Em suma, uma cidade a beira do abismo.

Não precisa ser visionário para prever que logo Sérgio Cabral estará solto, desfrutando o conforto do seu luxuoso apartamento no Leblon. Assim como ele, gente da estirpe de Daniel Dantas, Pimenta Neves, Nicolau dos Santos Neto, Henrique Pizzolato, Roberto Jefferson, Valdemar Costa Neto, Nestor Cerveró, Eike Batista, José Dirceu, Andrea Neves, Rodrigo Rocha Loures entre outros demonstram que a justiça brasileira funciona perfeitamente bem.

Isso mesmo, você não leu errado. A justiça no Brasil funciona!

Funciona para essa finalidade: deixar impune os bandidos da elite e encarcerar impiedosamente milhares de pobres, entre eles Rafael Braga cuja controversa condenação por tráfico de drogas escancara a função da justiça desse país.

Os dois Cabrais, o facínora português e o bandido brasileiro, estão separados por 517 anos de história, mas há um traço comum entre eles: a ganância e a sanha desenfreada por riqueza, ainda que tais ambições custem a vida de milhares de seres humanos.

*Luis Gustavo Reis é professor, editor de livros didáticos e colabora para Pragmatismo Político

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